Algum dia desejei ser diretora de cinema. Estava trabalhando como pesquisadora de imagem numa grande produtora carioca. Assistia trocentos filmes para trazer referências aos diretores poderosos do cinema nacional quando um grande amigo meu, o Helder, me chamou para dirigir um curta que ele escreveu, “Você não Serve”. O roteiro era engraçado e estava redondino. Aceitei.

Fizemos o curta em 48h num esquema de guerrilha. Gravamos com câmeras digitais na minha casa e no apartamento dos pais do ator principal. Editei sozinha, na minha ilha mesmo, e o Gian fez a seleção de músicas pra trilha sonora. Finalizado o curta, mandamos pra alguns festivais e também colocamos no youtube. Depois de mais de 2 mil acessos, chega na minha caixa postal uma mensagem: “Um detentor de direitos autorais reivindicou o conteúdo de um de seus vídeos”.

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Fui correndo verificar o curta no youtube. Tinham mesmo retirado o áudio, não só da parte da música de Otis, mas do filme inteiro!

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Otis Redding é um cantor americano de soul que morreu em 1967, há mais de 40 anos! A Warner detém os direitos autorais do artista. Lembro que tentei solicitar permissão para usar as músicas que selecionamos, até para saber como funciona esta história. Foi uma batalha. Listei as gravadoras que respondem pelos artistas mas, nem sempre a gravadora é a editora da música portando, tive que descobrir as editoras, o que não é tarefa fácil. Comecei a entrar em contato com algumas. Simplesmente não respondiam meus emails. Liguei. Me disseram que eu precisaria enviar emails para cada uma das editoras no exterior, apresentando o curta, explicando onde seria veiculado e solicitando uma autorização para o uso das músicas.

Ah tá, ok. Então eu explico que sou uma universitária do Rio de Janeiro, que fez um filme na brincadeira com amigos, com equipamentos emprestados da galera de cinema, num minúsculo apartamento em Laranjeiras e na casa dos pais de um dos atores envolvidos. Que o filme foi feito para ser veiculado no youtube e em festivais alternativos de cinema. E as editoras realmente vão me dar atenção e estimular a criatividade da galera com uma câmera mini-dv na mão? Depois do primeiro email enviado e devidamente ignorado ligamos um F e colocamos na rede.

Não acreditei quando recebi o email do youtube. Então as gravadoras realmente contratam pessoas para ficarem vasculhando na internet conteúdos que violam direitos autorais! Será?! Deste jeito, qualquer ser humano que nasceu depois dos anos 80 vira um criminoso. Se uma gravadora como a Warner se presta a isso sinal de que o barco está afundando mesmo. Quanto vídeos toscos você já viu com músicas protegidas por copyright??

Este curta, de apenas 8 minutos, feito com tecnologia digital, com uma proposta experimental, que não foi comercializado e não foi exibido em nenhum canal de TV, prejudica ou prestigia o artista? Depois de 40 anos da morte do autor da música, controlar o seu uso, mesmo que não comercial, em prol da arrecadação de terceiros, é positivo ou negativo para a sociedade como um todo? Como avaliar esta questão?

Teimosa que sou, coloquei o video no Vimeo. Quanto à vontade de dirigir … passou.

A moça está louca para casar mas seu noivo vive saindo pela tangente. Então ela resolve forçar uma barra armando um belo jantar para que ele faça o pedido.

Um filme de Helder Santana e Helena Klang

This entry was posted on Sunday, December 13th, 2009 at 11:04 am and is filed under Cinema, Experimentos. You can leave a comment and follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed.

8 Comments Leave a comment

  1. zé ronaldo said:

    Jan. 3, 2010

    Querida Helena se o filme foi um exercicio sem qualquer vinculo com distribuição troque os nomes e deixe no ar mas se voce tiver intenção de exibir em festivais ou mostras voce tem que pedir autorização sim.
    bjs
    JR

  2. dora gilda said:

    Dec. 16, 2009

    Oi Helena!Não entendo as leis da internet mas quero comentar q assisti ao video q vc dirigiu e gostei muito.Muito legal! Vá em frente q vc tem jeito para a coisa! Beijos da tia Dora

  3. Emilia said:

    Dec. 15, 2009

    Desconheço os trâmites financeiros e técnicos deste video; para mim tem valor estimativo (sem preço); o primeiro video criado em conjunto com minha sobrinha;guardado nos arquivos do meu computador com muito carinho;

    Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 2009

  4. Patrícia Azambuja said:

    Dec. 14, 2009

    No Globo de domingo, li uma matéria sobre a versão em português de “Happy birthday to you”. Tive arrepios. A “família herdeira” dos versinhos teve q brigar na justiça pelos direitos autorais (lê-se % + R$). Quer dizer, a economia acaba não beneficiando o artista e sim quem menos tem direito. Pior… teremos que mudar a trilha sonora das festinhas, para nossos vídeos caseiros?
    Bjs

  5. HK said:

    Dec. 13, 2009

    Então vamos ter que trocar: eu escrevo, Helder atua e Vargas dirige :)

  6. Helderos said:

    Dec. 13, 2009

    Se não há ganho financeiro com o uso da obra (o autor morreu há 40 anos!!!), não entendo porque obstruir o uso.
    Depois de rever o curta também não entendo porque sua vontade de dirigir passou, muito menos porque o Vargas desistiu.
    Vamos fazer outro?

  7. Gian Fabra said:

    Dec. 13, 2009

    a pergunta é simples de responder. É claro q prestigia muito mais do q prejudica ao artista, mas fazer a velha economia entender isso é pura perda de tempo. ‘Repostar’ o vídeo é a melhor resposta.
    bj

  8. Vargas said:

    Dec. 13, 2009

    Vc não é a unica. Eu fiquei duzentos anos correndo atras de uma musica. Liguei pra deus e o mundo e liguei tb um F enorme. Mandei pra festival e já entrei em 8! mas tb não ganhei nenhum awards ainda.
    Mas a vontade de atuar… ficou lá em 2006.

    beijos

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